quarta-feira, 27 de maio de 2009

A vida de um médico..

Erros, erros, erros e mais erros. Está tudo errado. Quem disse?? Alguém falou? Ouvi dizer que este é mais um caso de erro médico. Mentira!!! Sério??? E o assunto corre muito longe. Chamem todos, a notícia se espalhou para toda a família, toda a cidade, o mundo inteiro em algumas horas. Uma rede sórdida se forma em poucos instantes...
Enquanto isso... jaz um corpo numa cama úmida de hospital, misto de suor, mofo, num quarto nem tão escuro e nem tão silencioso. Já é manhã, mas ele ainda tenta dormir. Só mais um pouco...Preciso de mais um pouco...
Alheias ao moribundo médico que tenta dormir mais um pouco após um plantão muito cansativo, passam por ali umas amigas nojentas do chão, procurando os restos mortais de um sanduíche murcho, comido já no apagar das luzes. Os trapos que o cobrem estão sujos, cheiram a qualquer coisa ruim. Sem opções naquele momento a pobre criatura. Na verdade, aquela condição era a que menos o incomodava. O sono e o cansaço eram muito maiores.
A garganta começa a coçar, e ele desperta tonto com o som de uma maca passando no corredor do lado de fora.
A situação é essa. Ele assenta na cama, olha tudo em volta e pensa mais uma vez: que noite foi aquela? Sem ainda compreender bem, levanta-se com um peso enorme nos ombros e na cabeça que ainda lateja. Olha-se no espelho, pensa novamente: que noite foi essa? Estou péssimo, envelheci uns dez anos desde a última vez que me vi. O telefone celular toca e o tira daquele mundo de pensamentos. Uma voz bem fina e pueril fala do outro lado...
- Papai, estamos com saudades, que dia você volta pra casa?
Silêncio. Respiração profunda - Os olhos úmidos...
- Hoje à noite, meu amor!
- Poxa pai, você “tá” no hospital ainda hoje o dia todo? Porque você tem que trabalhar?
- É preciso minha florzinha!
- Papai... (ela enrola o dedinho pelos cabelos)... você traz um presente pra mim? Só pra eu lembrar de você?
- Está bem meu amor, vou ver o que posso fazer, certo? Um beijo...
- Um beijo...até de noite papai!
Silêncio...
- Amor? Você ainda está ai? Oi! Só ligamos pra desejar um bom dia. Vou levar a “pequetita” para escola, passar no mercado e depois vou pro consultório. Quer alguma coisa em especial pra comer à noite?
- Hummmmm... qualquer coisa tá bom querida. Bom dia pra vocês também!
Novo silêncio. Nova respiração profunda. Vamos lá, o dia ainda nem começou. Ainda tem mais doze horas que o separam da sua família, da sua cama, do seu chuveiro, de uma comida limpa, afinal temos que nos alimentar bem.
Ao pisar novamente no acelerador do carro, a paisagem passa rápido, o relógio ainda ganha da velocidade do asfalto, o estômago reclama daquele pão de ontem, mas não há tempo. Novamente o telefone celular toca. Apesar de estar errado...
- Fala meu amigo...
- Tá vivo ainda, cara? Já vou te dar más notícias! Você está encrencado! Lembra daquele paciente que você viu de madrugada?
- Qual deles? O que chegou mal na sala de emergência?
- Morreu agora pela manhã. A família está revoltada e disseram que vão te processar!
- E agora? Você sabe o que aconteceu, não é? Lembra aquela hora que eu te liguei pra contar dos exames dele?
- Eu me lembro, mas não adianta explicar pra mim! Vai explicar pro juiz, pra polícia e pra família que a culpa não é sua! Eu te liguei porque já está a maior confusão lá no hospital e acho bom você se preparar pra se aborrecer...
- Valeu pelo aviso meu amigo!
- Se precisar de mim, avisa. Aida vou ficar aqui de plantão até a noite...
Ainda meio que sem acreditar naquele dia, naquela noite, respirou fundo novamente. Não era a primeira vez que aquilo acontecia. Os desencontros entre pacientes e médicos são tão freqüentes. São opiniões e pontos de vista distintos... mas... isso nem importava mais. Ninguém entende mesmo o médico!

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